quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Diferentes diferenças



A nomeação de Lula à Casa Civil, em março passado, tinha potencial para impedir o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Tanto que foi sabotada, numa artimanha duplamente ilegal, e a conspiração teve êxito.

Reduzir o episódio a uma tentativa de obstrução da Justiça parece um meio de salientar a contradição do STF no indulto ao ministério de Moreira Franco. Mas não passa de uma deturpação para ofuscar as cruéis diferenças que separam ambas as circunstâncias.

Sim, os casos são diversos. O de Lula teve singularidade estratégica e simbólica que sua biografia já deixaria evidente, para além do escandaloso ineditismo do grampo telefônico. O foro especial do secundário Moreira Franco trará no máximo constrangimentos ao STF.

Por isso não convém cair na armadilha de tornar as situações equivalentes, como se o tratamento a Lula fosse aceitável e, portanto, devesse atingir também o peemedebista. Repudiar o arbítrio seletivo não implica defender a sua generalização.

Tampouco se trata de argumento favorável à decisão de Gilmar Mendes contra o petista. Usando supostas evidências que o próprio STF declarou inaceitáveis, o ministro lavrou uma canetada que atingiu o cerne da autonomia institucional no país. Celso de Mello tornou o erro original ainda mais peculiar quando evitou repeti-lo.

É falacioso comparar o status legal de Lula e Moreira, Dilma e Temer, sob um prisma que os iguale, mesmo em princípio. Há muito esse tipo de imbróglio fugiu ao âmbito jurídico, estabelecendo-se numa seara cujo pressuposto básico é o cinismo oportunista.

Nesse universo de disparidades inatas, o posicionamento ideológico do analista se revela nas diferenças que ele escolhe para criticar.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

“Demônio de neon”



Nicolas Winding Refn tem uma obra variada e complexa. É impossível reduzir os dramas realistas da trilogia “Pusher” e de “Drive”, os pesadelos sombrios de “Bronson”, “Medo X” e “Guerreiro silencioso” e as fábulas estilizadas de “Só Deus perdoa” e “Demônio de neon” a um mero fascínio visual pela violência.

David Lynch, Quentin Tarantino e Martin Scorsese são referências óbvias de seus trabalhos, principalmente os mais recentes, onde os estilos dos três se misturam. Parte da crítica torce o nariz para o diretor dinamarquês, contudo, talvez porque ele seja bom demais em mimetizar seus ídolos, atraindo o espectador para um cinismo que eles não ousam destilar.

Imagino que o universo imoral e ofensivo de “Demônio” provoque respostas variáveis, dependendo da experiência que se tem com aberrações cinematográficas. De minha parte, a demência dos personagens teve um impacto muito menor do que a beleza hipnótica da ambientação kitsch (ou seria camp?), levada a extremos pouco vistos na atualidade.

Em outras palavras, a fotografia de Natasha Braier (um espetáculo de iluminação captado em digital), a direção de arte de Austin Gorg e a música de Cliff Martinez valem o desconforto. E há também a crítica feroz ao universo da moda, à competividade feminina e à mercantilização do corpo na selva midiática. Tudo muito polêmico, etc., mas ninguém disse que o cinema precisa ser apenas seguro e confortável.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Conspiração



É inútil esperar grandes revelações sobre o episódio que vitimou Teori Zavascki. Jamais saberemos toda a verdade, seja pelas dificuldades técnicas e materiais de qualquer apuração do tipo, seja porque a improvável descoberta de indícios criminosos dificilmente chegaria aos seus eventuais autores, menos ainda aos mandantes.

Resta-nos uma espécie de disputa narrativa em torno da própria incerteza com a qual teremos de conviver. Mesmo sem esperança de sanar as suspeitas plausíveis, sugiro que as protejamos dos rótulos paranoides que elas recebem de crédulos e cínicos. Duvidar é sempre o caminho menos alienante.

Isso tem relevância porque envolve a simbologia da morte de Zavascki, esfera em que a manipulação age com mais desenvoltura. Há algo estranhamente passivo no conformismo fatalista alimentado às custas da tragédia. Parece que todos se preparam para um futuro inexorável de horrores trazidos pela ira divina. Sem resistência.

Por que não ocorre o contrário? O uso das notórias posições de Zavascki para pressionar o substituto a respeitá-las em seus votos? Para que os ministros do STF reconheçam e preservem esse legado? O esclarecimento da opinião pública acerca dos caminhos que os processos sob análise do falecido tomariam sem a tragédia?

Não precisamos buscar estratégias conspiratórias nas causas da queda do avião. Suas consequências são graves o bastante. A simples possibilidade delas terem nascido de uma sabotagem deveria servir para interditar os desdobramentos óbvios pretendidos pelos hipotéticos assassinos. Mas sussurramos “que peninha” e seguimos adiante.

Curioso esse comportamento surgir nos supostos defensores da Lava Jato. E justo naqueles mais céticos e avessos à tese do atentado hollywoodiano. Mas eles têm razão. O que importa é o desfecho ser convincente.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Três vezes Isabelle



Felizes coincidências me colocaram diante de três filmes recentes protagonizados pela maravilhosa Isabelle Huppert. São universos bem distintos: “Elle” é um suspense erótico (na falta de rótulo melhor), “Mais forte que bombas” um drama familiar e “O que está por vir” uma reflexão filosófica sobre o tempo e as gerações.

As obras têm tratamentos parecidos, talvez para explorar o dom inigualável de Huppert no registro contido, minimalista. Daí que mesmo as passagens mais dramáticas ou violentas transcorrem num clima de sugestão e enigma.



Nessa levada, “O que está por vir” me pareceu mais rico, instigante e provocador. Não é o melhor cinematograficamente, pois mestre Paul Verhoeven dá uma aula de ritmo e ambientação em “Elle”. Mas a premiada condução da jovem Mia Hansen-Love tem o mérito de, reduzindo a carga emocional da protagonista em sua desventura amorosa, evidenciar toda a complexidade de um texto muito especial.



“L´Avenir” (o futuro): o abandono e a velhice da mãe de Nathalie; ela própria, com seu conformismo cético e sua solidão anunciando o destino das utopias coletivistas e revolucionárias dos alunos; o neto recém-nascido, sob o pranto assustado da jovem mãe, que é também filha, nova e antiga ao mesmo tempo...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Dezessete (preguiça, desalento, vontades)



Antes que eu pudesse esboçar perspectivas, os primeiros fatos do ano vieram inviabilizá-las. Mesmo os desdobramentos das grandes emoções de 2016 já não parecem suficientes para anteciparmos as turbulências inevitáveis de 2018. Reféns da imprevisibilidade, atropelados por sobressaltos, flertamos com a desesperança.

Esse ambiente de susto e incerteza me apanha reflexivo, cheio de urgências, mudanças, riscos. Certa sensação de esgotamento dos modelos expressivos que vinha utilizando, mas também desejo de ampliar horizontes, buscar vias novas.

Um desamparo preguiçoso diante da selva de textões que saturam as redes digitais, alimentando miríades de bolhas discursivas indiferentes à controvérsia e ao debate. Uma desconfiança do intercâmbio algorítmico e da obsolescência que ele pretende impor a espaços digressivos fora dos seus cubículos de vidro.

Cansaço de novidades que reciclam velharias. De intelectual cínico. De esquerda que defende índio mas apoia meganhas e excelências. Da burrice orgulhosa de si mesma e da raiva que a incentiva. Do provincianismo barulhento, feio, doméstico. De velharias que inspiram falsas novidades.

O desejo de resgatar o viés subjetivo da página pessoal, ou melhor, de preservá-lo da traiçoeira sedução da ágora feicibuquiana. Um apego extemporâneo à ideia de autoria, como antídoto contra a suruba diletante virtual. Talvez apenas a impressão de que algo relevante se perde quando levo as coisas a sério demais.

A certeza do recomeço. Do passo seguinte que cada passo engendra. Essa ideia permanecerá latente: a necessidade da mudança. Ou seria a dura constatação de sua inevitabilidade?

sábado, 24 de dezembro de 2016

“A Hard Rain's A-Gonna Fall”



Patti Smith representando Bob Dylan na cerimônia do Nobel. Além de emocionante, o episódio traz uma simbologia muito especial para esse tumultuado 2016 que se encerra. O prêmio ao poeta, sua ausência, a canção escolhida, a beleza da interpretação e até o erro da cantora carregam mais significados sobre o momento histórico atual do que muitas análises críticas lograriam reunir.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balanço do golpe VI


















Conclusão

As análises desta série procuraram reunir evidências de que o impeachment de Dilma Rousseff configurou um golpe parlamentar. O conceito implica, primeiro, que não houve base jurídica para a deposição e, principalmente, que ela ocorreu na única esfera capaz de viabilizá-la dentro dos tênues limites da constitucionalidade.

O papel da máquina de propaganda, financiamento e legitimação da agenda golpista foi enquadrar o pemedebismo fisiológico no roteiro dos conspiradores palacianos. Para além de fantasias meritórias e espontâneas, a “tempestade perfeita” que levou ao impeachment reuniu pressões, chantagens e escambos eleitoreiros tendo o Congresso como palco.

Soa incongruente que os vencedores disputem espólios nessa ruína moral e administrativa que restou da aventura, mas o que está em jogo é transformá-la num projeto duradouro de poder. Para isso torna-se necessário evitar que a impopularidade de Michel Temer escancare os vícios do rito que o empoderou, jogue para seus artífices a conta da crise generalizada e fortaleça os setores prejudicados no episódio.

A tática do Judiciário e da mídia tucana consiste em fazer da Cruzada anticorrupção o legado positivo do impeachment. Uma bandeira “republicana” que permitiria destruir a candidatura de Lula, represar a insatisfação social antes que seja canalizada pela esquerda e afastar os obstáculos para a criação de um governo transitório nos moldes de Itamar Franco, de onde surja a plataforma situacionista em 2018.

Assim compreendemos a atualidade e a relevância do embate narrativo e epistemológico em torno do golpe. Sua negação fornece as bases discursivas sobre as quais se mantém o sistema ideológico da guinada conservadora, incluindo o repúdio à democracia representativa e aos programas sociais, o antipetismo judicial e o arbítrio punitivista.

O esquecimento das circunstâncias históricas do impeachment faz parte das pretensões conciliadoras e hegemônicas do programa golpista. Enquanto a democracia brasileira se defronta com a perigosa naturalização de excepcionalidades, é importante lembrar a mais escancarada e afrontosa de todas.


A série “Balanço do golpe”:

Introdução

A base

As ruas

O papel do Judiciário

O poder da mídia

sábado, 17 de dezembro de 2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

“Estação das clínicas”




















Chegou o mais recente trabalho poético de Iacyr Anderson Freitas, celebrado autor de “Viavária” e “Ar de arestas”. A apresentação é de Luiz Ruffato, e a edição da Escrituras.

Um comentário crítico sobre a obra pode ser acessado aqui. Abaixo, um exemplo, entre muitos, dos seus belos e sofridos poemas.


Menos um dia


cruzei a soleira do sono
escada abaixo
de pesadelo em pesadelo

como se tivesse
um ninho de serpes
no travesseiro

urinei de hora em hora

até que a bigorna em fogo
da aurora
bateu forte no meu rosto

acordei com raiva dos santos
e das sete virtudes teologais

não tomei café não comi
um pedaço de pão
sequer

fui direto para o trabalho
para ascender mais um dia
ao calvário

de nenhum
calendário

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

É necessário resistir à Cruzada anticorrupção



Publicado na página do Le Monde Diplomatique Brasil


Enquanto a esquerda brasileira busca novas agendas e programas, o tema da corrupção vem ganhando protagonismo cada vez maior nos seus debates. Vejo essa tendência com perplexidade e desalento, pois a considero um erro conceitual e estratégico grave, que pode mesmo inviabilizar a sobrevivência do progressismo organizado no país.

Chamo doravante de Cruzada o amplo repertório subjetivo que acompanha a pauta anticorrupção nos moldes atuais. O termo abarca tanto o viés místico da plataforma quanto seu imaginário bélico, ambos tendo como principal símbolo a operação Lava Jato, apesar de não restritos a ela. A qualificação busca espelhar também o uso sectário do programa, o hábito de desqualificar seus críticos por suposto apoio a alas “infiéis”.

Logo de saída notamos que o espírito da Cruzada guarda uma contradição insanável: precisa ser inflexível na propaganda, mas tolerante na aplicação. Levada a purismos extremos, ela jamais daria conta das minúcias irregulares da vida social, das instituições públicas e do setor corporativo. Por outro lado, admitindo sua inviabilidade prática, perde o sentido isonômico e universalista que a justifica, ou parece justificar.

Considerando que as próprias infantarias cruzadas sucumbiriam ao rigorismo total, apela-se para uma relativização seletiva. O alvo então se restringe à demonizada classe política, mais especificamente ao “outro” malfeitor que não desfruta das simpatias ocasionais dos fiscalizadores (partidárias, religiosas, performativas). E é exatamente esse farisaísmo que termina por arruinar os bons propósitos da empreitada.

Como na obsoleta “guerra”contra as drogas, o falso “combate” da Cruzada se resume a um ciclo vicioso de fracassos que geram novas medidas de exceção, cujas derrotas servem de pretexto para mais arbítrio. Ora, não faltam leis. Mesmo às vezes desatualizada, a legislação brasileira é suficiente. O verdadeiro problema da corrupção, a impunidade, nasce nas instituições que mais defendem o aperto regulatório e os extremos punitivos.

O único resultado prático da radicalização legal é empoderar tais setores, essencialmente antidemocráticos, eles próprios corrompidos, privilegiados e impunes. O esforço para impedir que o decálogo saneador se estendesse ao Judiciário exibiu, mais do que apego à blindagem corporativista, o reconhecimento das prerrogativas arbitrárias em disputa.

A Cruzada é, portanto, um construto ideológico. Uma âncora discursiva presa a memórias e práticas sociais incompatíveis com qualquer plataforma libertária. Sua negatividade substancialista mobiliza intolerância, medo, castigo. O aplauso a polícias e justiceiros togados embute uma potência desejosa de “vigiar e punir” (pobre Foucault) que permeia as vias mais arcaicas de opressão. Elas precisam ser extintas, não generalizadas.

Mas, convenhamos, os sinais estavam claros já nas manifestações pelo impeachment, com seus grupelhos fascistas, seus policiais-modelo, seus bonecos enforcados, suas apologias militares. E continuam óbvios em grampos ilegais, vazamentos clandestinos, delações manipuladas, denúncias vazias, humilhações de réus, vendetas escusas, todo um rol de “excepcionalidades” inconstitucionais que chocavam os progressistas de antanho.

Do ponto de vista estratégico, a pauta da Cruzada não é ruim para a esquerda porque moralista, embora algumas de suas vertentes talvez mereçam o adjetivo. É ruim porque simplória, vetusta, agressiva, com cheiro de elite “cansada”. E porque jamais conseguirá se desvencilhar do ódio pela democracia representativa, do ressentimento contra o eleitor, da mesura à autoridade e do menosprezo por ritos e direitos.

Se existe um meio libertário e inclusivo de abordar o imenso problema da corrupção sem instrumentalizá-lo ideologicamente, o trajeto é inverso: valorizar a representação política, a constitucionalidade, a isonomia judicial, a transparência institucional ampla e irrestrita. Principalmente no Poder Judiciário, que, repito, sempre foi a grande fonte da impunidade e agora finge ser vítima dos seus beneficiários.

Pesquisas de opinião monotemáticas ou realizadas no calor da polêmica servem para aferir o poder dos cruzados midiáticos, não uma tendência que a sociedade teria se o debate público fosse de fato amplo e informativo. Aliás, mesmo o aval majoritário da população pode ser questionado. Ou será que a desculpa do acolhimento ao anseio popular valeria também para a defesa da pena de morte? Para a criminalização do aborto?

Adotar a Cruzada representa um oportunismo contraditório com as críticas desferidas às alianças espúrias do PT. E uma repetição do seu pragmatismo suicida: o fortalecimento de alas retrógradas que não hesitariam em aplicar o legalismo tendencioso à esquerda adesista ou em absorvê-la, gerando facções moderadas nas franjas de uma coligação conservadora hegemônica. Todos apaziguados pela causa comum.

Algumas tropas já se voluntariam para o sacrifício. São as seitas do esquerdismo antipetista mais radical, atraídas pela Cruzada apenas porque o PT denuncia seus métodos. Incapazes de superar a mal resolvida crise edipiana com Lula, aninham-se no colo maternal da Justiça, esperando que ela os satisfaça através do sacrifício expiatório do antigo líder. E brandindo a retórica policialesca na falta de outra que a substitua.

É óbvio que esse lacerdismo cor-de-rosa está restrito a uma verborrágica porém diminuta minoria, que não se dá sequer ao trabalho de explicar suas contradições sem recorrer ao antipetismo como selo autolegitimador. Observando o campo progressista para além das bolhas digitais, vemos uma ampla constelação de valores, desejos e narrativas que poderiam levar a pauta da corrupção a patamares menos inconsequentes.

As promessas redentoras e paradisíacas da Cruzada parecem tentadoras porque a suposta falta de perspectivas (também ela um subproduto da ideologia judicial) empurra a militância para os confortos inerciais do discurso único. Basta que ele seja desarticulado, mostrando a intolerância, a desigualdade e o autoritarismo da sua nudez obscurantista. Aí a esquerda encontrará sua pauta, articulada não em torno da adesão, e sim da resistência.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Um poema na Subversa


Meu poema “Marienplatz” foi publicado no mais recente número da revista literária Subversa.

A edição integral pode ser acessada aqui.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Até onde vai a solidariedade pela Chapecoense?



















Bonitas e tocantes as manifestações suscitadas pela tragédia. Parecem mesmo sinceras, e espero que sejam, porque muito precisará ser feito para amenizar algo dessa gravidade.

Mas há um incômodo que o choque não suplanta: por que ninguém sugere dar à Chape condições equivalentes às dos times das capitais, pelo menos na divisão da verba televisiva do Campeonato Brasileiro? Que tal uma equiparação geral de cotas por cinco anos? Ou a reformulação definitiva do sistema?

Isso não ajudaria o clube apenas financeiramente. Daria à comunidade alviverde a chance de vê-lo receber tratamento digno, igualitário, pela primeira vez na história. Participar de uma disputa nacional sem privilégios.

Não tenho a pretensão de adivinhar as vontades das famílias das vítimas, da diretoria e dos torcedores. Muito menos de misturar nesse luto inimaginável assuntos do putrefeito submundo administrativo do esporte.

Falo dos outros. Das ofertas que fazem. De sua verdadeira compaixão.

Podemos convir, diante do cinismo generalizado, que cartolas e burocratas do resto do país queiram apenas zelar pelas próprias imagens. Mas é constrangedor o silêncio da crônica esportiva quando mais se precisa de ideias justas, exemplares, transformadoras.

Em suma, a estrutura de favorecimento financeiro que permite à Globo, à CBF e aos respectivos patrocinadores manipularem o futebol está de tal modo naturalizada que não se cogita discuti-la sequer diante do maior dos desastres.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A cidadania criminalizada



As figuras antipáticas e impopulares de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral embotam os significados de suas prisões. Mas a identidade dos personagens (e até sua inocência) tem pouco a ver com o aspecto mais preocupante dos episódios: o exibicionismo punitivo esvaziado de conteúdos jurídicos ou morais.

A banalização do encarceramento, a humilhação pública dos réus, a pantomima da soldadesca, a verborragia agressiva dos procuradores, eis que o teatro “excepcional” da Lava Jato vai sendo naturalizado, virando uma rotina de atitudes extremas desnecessárias.

Esse costume só existe graças ao limitado leque partidário da operação. Sua isonomia negativa espelha o recorte originalmente desigual, que também explica a tolerância que a operação desfruta na cúpula do Judiciário. Se tratamentos indignos pudessem atingir lideranças do PSDB, o precedente seria cortado na primeira tentativa.

O padrão temerário da Lava Jato evidencia uma peculiar desconfiança nos ritos processuais. As cortes inferiores e as autoridades policiais parecem querer castigar os indiciados antes que se defendam, exorbitando o prejuízo para que ele fique irremediável mesmo no caso de absolvição. Preferem tolher direitos ao risco de impunidade.

Há quem considere tais direitos “privilégios”, alegando que fogem às práticas vigentes. Assim opera o que chamei de “malufismo jurídico” (abusa mas prende), um raciocínio de fachada solidária que parte das violações cotidianas sofridas por negros e pobres para chegar à tolerância com as violações praticadas contra ricos e brancos. Em vez de se rechaçar quaisquer formas de injustiça, defende-se generalizá-la.

A metáfora bélica do “combate” à corrupção explica o tom raivoso dos seus apologistas. Mas não é outro o espírito do crime organizado, nem o da polícia assassina. Em comum, a ideia de que o exercício pleno da cidadania configura um obstáculo, uma veleidade burguesa ou, pior, um subterfúgio de malfeitores.

E a narrativa guerreira é sedutora. A glamourização midiática alimenta a ostentação repressiva gratuita, que alimenta o gozo obsceno com o sofrimento de Garotinho, Cabral e outros réus. O apelo sensacionalista supre a falta de motivos para os requintes autoritários e desmoraliza, ou inibe, eventuais medidas recursivas que venham repará-los.

O comando da Lava Jato sempre buscou exatamente isso: saciar a psicose vingativa do público, instrumentalizando o espetáculo do justiciamento precoce em troca de uma popularidade que imponha as “convicções” dos acusadores. Quando fizerem o mesmo com Lula, por exemplo, todos ficarão satisfeitos e conformados.

Tipicamente fascista, o punitivismo demagógico não é apenas um sintoma da falência dos valores da democracia representativa. É, acima de tudo, elemento agravador do problema. O apoio da sociedade nunca legitimou fenômenos dessa natureza; pelo contrário, abriu caminho para tragédias históricas. Já devíamos ter aprendido a evitá-las.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

“Snowden”



Retorno de Oliver Stone à dramatização de episódios políticos. Obra relevante para os debates sobre a suposta neutralidade da tecnologia de comunicação, as estratégias hegemônicas dos EUA e o exercício das liberdades individuais nesse país.

As seguidas menções ao Brasil e o aparecimento fugaz de Dilma Rousseff trazem um perceptível incômodo à plateia, forçada a sair brevemente do conforto evasivo. Dilma retratada como vítima, num produto hollywoodiano, diante de uma sala quase lotada de shopping, tem sua cota de ironia.

Gosto de pensar que parte da audiência, pesquisando o caso, conhecerá Glenn Greenwald, um dos jornalistas procurados por Edward Snowden. Greenwald, que hoje mora no Rio de Janeiro, é dos mais ardorosos críticos do golpe parlamentar que derrubou Dilma.

Quanto ao filme, tenho dúvidas sobre as opções narrativas de Stone, que parece mais empenhado na sedução pedagógica do que na linguagem cinematográfica. Apesar do esmero na condução do suspense, o diretor não iguala o dinamismo e o arrojo de seus melhores trabalhos.

E continuo vendo algo de pueril no escândalo, que surpreende apenas quem acreditava nas boas intenções dos órgãos de inteligência dos EUA. A ênfase na revelação corre o risco de simplificar demais o caso, esquecendo, por exemplo, a estrutura político-judicial que legaliza a espionagem de civis e transforma seus delatores em criminosos.   

Noutras circunstâncias, Joseph Gordon-Levitt concorreria ao Oscar, mesmo sem chances ou merecimento de vitória. Mas talvez não seja um bom momento para a Academia lembrar passagens negativas do governo Barack Obama.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Balanço do golpe V

 

















O poder da mídia

Os grandes veículos de comunicação participaram de duas maneiras no projeto golpista: dando unidade narrativa à pauta do impeachment e atuando como agentes coercitivos sobre os parlamentares que o materializaram.

A primeira estratégia pode ser resumida na construção de certo catastrofismo antipetista centrado em temas fortes como a corrupção, a crise econômica e o estelionato eleitoral. Em todos os casos, seguiu-se um padrão de conciliar o viés tendencioso do noticiário com o opinionismo ativista, alimentados mutuamente por enunciados comuns.

O moralismo seletivo, o terror econômico e a inédita preocupação com os eleitores criaram uma simbologia meritória para o impeachment. A ideia era amenizar o caráter fisiológico e hipócrita do golpe, dando enredo ao teatro salvacionista dos parlamentares. A falsa base jurídica do processo, com o suposto aval do STF, teve função similar.

A segunda estratégia lidou com a face propagandística do amplo empreendimento público e privado das passeatas pelo impeachment. Ali as corporações midiáticas empenharam todas as suas ferramentas mobilizadoras: divulgação de agendas, pautas temáticas, entrevistas com organizadores, artigos deles próprios, incentivos diversos.

O sucesso do projeto exerceu influência óbvia nos votos pelo impeachment, sob o rótulo enganoso “vontade popular”. Mas a pressão teve também um viés chantagista, pois mostrou o poder destrutivo da mídia contra seus desafetos. Muito do apoio ao golpe no Congresso brotou do receio de uma exposição negativa de quem o rejeitasse.
                                                                                    
A imprensa funcionou como elo interinstitucional para a agenda golpista. Constituiu o mais valioso agente do impeachment fora do Legislativo, permitindo às outras esferas um grau de interferência que elas não poderiam exercer de maneira direta, por limitações técnicas, legais e mesmo éticas.

Não por acaso, o grande beneficiário dessa atuação foi o antipetismo judicial, que assumidamente calca sua estratégia na instrumentalização da mídia. A aliança dos veículos com a Lava Jato conheceu desvios clandestinos, amiúde francamente ilegais (e impunes), que produziram alguns dos momentos decisivos do golpe.

Tal arranjo de interesses aponta para um viés conspiratório que derruba as falsas aparências de “normalidade democrática” do impeachment. O oportunismo fisiológico de senadores e deputados foi o reflexo previsível do conluio imoral que já havia naturalizado o arbítrio junto à opinião pública.


A série “Balanço do golpe”:



  

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre as eleições municipais


















A direita exagera seu triunfo nas disputas municipais. Observando os mapas históricos, notamos dois fatores: a) jamais houve “onda vermelha” nessa esfera, desautorizando a hipótese da “onda” contrária; b) o resultado atual configura um rearranjo partidário de vitoriosos no mesmo campo ideológico tradicionalmente hegemônico.

Em outras palavras, confirmou-se o antigo predomínio regional da centro-direita, com pequena variação positiva. No quadro geral, só a perda acentuada de votos do PT se destaca pontualmente. Ela pode refletir menos um fortalecimento do PSDB do que o avanço das legendas pequenas que nasceram depois de 2012 (SD, PROS, PEN, etc.).

A derrota do PT foi mais notável nos grandes centros urbanos, palcos do imenso esforço propagandístico e financeiro das passeatas pelo impeachment. Ao mesmo tempo, o volume de votos inválidos (quase um terço do eleitorado) e a ascensão de candidatos sem experiência partidária sugerem que parte do antipetismo adquiriu uma face “antipolítica” apenas circunstancialmente ligada às rivalidades usuais.

De qualquer forma, é impossível estabelecer conexões causais de resultados em escopo tão vasto e complexo. Os arranjos das coligações, a influência de governadores e o fisiologismo do governo ilegítimo (que negociou o golpe  com os interesses eleitorais dos parlamentares) suplantam qualquer diagnóstico generalizante.

Cada processo eleitoral tem lógicas próprias que não podem ser ignoradas. Cito o exemplo de São Paulo, que tem servido erroneamente de modelo para abordagens conjunturais amplas. Ali, os seguintes aspectos precisam ser considerados:

- Tempo de rádio e TV: João Doria montou extensa coligação partidária, que resultou em maior exposição midiática e ampliou seu índice de reconhecimento.

- Dinheiro: graças às novas regras eleitorais, a riqueza pessoal de Doria deu-lhe enorme vantagem diante da falta de recursos de Fernando Haddad.

- Comunicação: Doria explorou um perfil alinhado ao ceticismo político do eleitor. Haddad chegou fragilizado pela sistemática propaganda negativa da imprensa paulistana, além de ter feito um governo com promoção institucional muito ruim.

- Estratégia: enquanto Haddad lutava para se garantir no segundo turno, Doria (com auxílio dos institutos de pesquisa) priorizou o arremate da disputa no primeiro.

- Arco de candidaturas: nas periferias, Doria se beneficiou com o desgaste mútuo de nomes fortes nessas regiões; no “centro expandido”, com o antipetismo militante das classes médias.

Por fim, parece urgente um debate sério acerca da proibição de financiamento empresarial de campanhas. A individualização do caixa dois e o favorecimento de candidatos com maior patrimônio são duas consequências da canetada que trazem um preocupante viés antidemocrático ao processo eleitoral.

Talvez esse tema entre nas pautas midiáticas, assim que decantar o cinismo festivo dos analistas.