sexta-feira, 13 de junho de 2008

A cultura do capital

Publicado na revista Caros Amigos, em junho de 2008

Artistas e produtores exigem mudanças na legislação de incentivo à cultura, mas parecem ignorar que seus problemas permanecerão se as estruturas do modelo vigente forem preservadas. Pode-se criar instrumentos para fiscalizar melhor os recursos, descentralizar os projetos, equilibrar as participações de empresas públicas e privadas e até coibir a ação predatória dos muitos intermediários. A lógica nefasta da renúncia fiscal, entretanto, sobreviverá a todos esses aprimoramentos.
Submeter a sobrevivência da produção cultural às diretorias das grandes corporações é consagrar a mediocridade. O experimentalismo, a inovação e o surgimento de novos criadores são inviáveis perante a força midiática dos profissionais oriundos da indústria do entretenimento. Uma obra não pode ser legitimada apenas por conluios pessoais, campanhas publicitárias ou convenções mercadológicas.
A classe artística acomodou-se na mendicância. Os financiadores utilizam verbas públicas para divulgar suas marcas, sem riscos, sorvendo apenas os benefícios das empreitadas de maior visibilidade e apelo comercial. A crítica se transformou em promotora de atrações, deslumbrada apologista de bilheterias. E o espectador permanece indiferente, condicionado a engolir qualquer bobagem com moldes televisivos.
Para romper esse paradigma, torna-se urgente resgatar a ação estatal do consenso depreciativo, que beneficia apenas os cofres e reputações de uns poucos privilegiados. Cabe ao Estado financiar a iniciação e a pesquisa, instituir reservas de mercado, regular e tributar a atividade dos produtores estrangeiros, interferir na rede de distribuição, estabelecer contrapartidas para projetos vultosos. O incentivo fiscal não deve acabar, mas precisa ser equilibrado por políticas públicas que supram suas insuficiências.

3 comentários:

fabrício disse...

concordo. e é a mesma situação das universidades. tomando esse mote, queria saber, guilherme, qual você acha que á a postura do governo do pt diante disso. me explico. nessa onda de submeter a cultura ao capital, parece que cursos universitários como ciências sociais, filosofia, história etc. vão sendo deixados pra trás, pela menor facilidade de aproveitamento pelo capital. por isso, o investimento nessas áreas poderia servir como um indicativo de como um governo pensa a educação. há alguns anos inauguraram uma aquela federal de são paulo em guarulhos, justamente com esses cursos. o que vc acha disso? será que se trata só de começar um campus com cursos mais baratos?
um abraço.

fabrício disse...

Guilherme, voltando àquele seu texto sobre o tropa de elite, ao responder meu comentário você dizia que o "tráfico absorve parte da população excluída, impedindo-a de ingressar em outras atividades ilegais ou até mesmo de disputar oportunidades no mercado. Mas não entendi se essa transferência lhe agrada". Respondendo a sua pergunta, a situação também não me agrada. No mais, concordo com o sua resposta ao meu comentário, sobretudo quando você diz que "A droga tem menos a ver com a violência do que a fome e a exclusão". Por isso eu disse que quem identifica imediatametne o tráfico à criminalidade acaba pensando como o capitão, não com respeito aos métodos e a violência, mas com respeito às causas do problema.
Por outro lado, talvez eu tenha minimizado a importância do tráfico na organização do crime, nem que seja historicamente. Mas avaliar isso já fugiria ao meu conhecimento do assunto. Eu só diria, por fim, algo sobre o filme, que eu acabei não comentando. Não acho tanto que o tropa seja um "filme de tese". Acho que menos que defender um ponto de vista do diretor ou do roteirista, se tratou ali de tentar passar o discurso e a ação dos membros da tropa de uma forma realista, sem interferências de contradiscuros, com todas as contradições e com tudo o que neles há de persuasivo. Podemos discutir se isso é possível, ou até que ponto é. Mas acho que a força maior do filme vem disso, dessa crueza de uma realidade que nos causa uma reação emocional forte e contra a qual não há como não se posicionar, como diante da própria violência. o que quero dizer, no fim das contas é que a discussão, me parece, não é feita dentro do próprio filme. Ali tenta se mostrar a coisa da maneira mais forte possível. Claro que poderíamos nos perguntar se não seria mais útil fazer um documentário simplesmente. Mas acho que a ficção feita daquela forma pode permitir tocar a realidade de uma maneira que o próprio olhar sobre a realidade crua não permitiria. Por isso acho que é um grande filme. É isso.
Até.

Guilherme Scalzilli disse...

Fabrício,
seu comentário sobre o filme vai ser incluído como nova postagem. Quanto à questão anterior, não conheço a Federal de Guarulhos. Acho alvissareiro, a princípio, criar vagas para alunos e professores nessas áreas. O processo de mercantilização do ensino superior começou no governo FHC, com a abertura de inúmeras faculdades particulares, muitas sem padrões mínimos de qualidade, privilegiando cursos com boa aceitação no mercado de trabalho. Elas continuam funcionando graças a uma conjugação de fatores: a tolerância do Ministério da Educação, os lobbies fortíssimos das faculdades no Congresso, a grande procura dos alunos. Para voltar ao tema do texto, pondero que deve haver alguma explicação para o fato de os cursos mais bem avaliados estarem concentrados nas universidades públicas, enquanto as piores notas referem-se quase exclusivamente às particulares.