sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A 30ª Bienal de São Paulo















O “motivo” proposto, A Iminência das Poéticas, sugere expectativa latente, processo irresoluto, vir-a-ser vazio de significados definitivos, mas prenhe de possibilidades interpretativas. Esses conceitos (e sua tematização) parecem tão característicos da arte contemporânea que chegam a anunciar uma pretensão impossível, ou um labirinto especulativo demasiado sujeito a equívocos e recortes aleatórios. Mesmo o texto de apresentação do evento classifica a Iminência como “lugar”, termo estranho à premissa.

Mas a curadoria de Luis Pérez-Oramas é surpreendentemente bem-sucedida no recorte complicado que se propõe. Em vez de apenas confirmar a inevitável natureza aberta, fragmentária e provocativa do repertório disponível, a maioria das obras selecionadas faz desse estatuto um meio de questionamento do próprio discurso artístico e do papel do artista na sociedade. Mesmo alguns trabalhos que resistem à pretendida abrangência de leituras e problematizações possuem valor estético inegável, que não deixa de contribuir para a apreensão do conjunto expositivo. Mas faltou Beuys, de novo.

Os destaques possíveis envolvem múltiplos suportes: muita fotografia (Iñaki Bonillas e Ilene Segalove), alguma escultura (Tiago Carneiro da Cunha), pouca pintura (Juan Iribarren), colagem (Juan Luís Martinez), instalação (Meris Angioletti), objetos (Savvas Christodoulides e Arthur Bispo do Rosário) e, principalmente, a performance em suas diversas possibilidades (Eduardo Gil, Tehching Hsieh, Alberto Casari e Martín Legón). A investigação antropológica é constante e às vezes perturbadora.

Graças ao comprometimento que exige do público, ao caráter narrativo dos trabalhos e ao detalhismo predominante, não é experiência que se realiza plenamente numa visita curta ou apressada.

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